Um réquiem a Rose Marie Muraro, por Maria Berenice Dias/ Informações sobre a escritora falecida recentemente


Homenagem da jurista Maria Berenice Dias, vice-presidenta nacional do IBDFAM, a Rose Marie Muraro, uma das principais intelectuais brasileiras e uma das pioneiras do movimento feminista no país, e que morreu no último sábado, dia 21 de junho. 
“Dos vícios que tenho, o mais devastador é a leitura. É de tal grau a minha dependência, que preciso guardar junto com as malas tudo o que desejo ler, e que nada tem a ver com os meus deveres de natureza profissional. Assim sempre viajo bem acompanhada. Os trajetos encurtam, e minha única dificuldade é abandonar o livro até a próxima viagem. Mas Rose Marie Muraro e suas “Memórias de uma Mulher Impossível” romperam minha disciplina. Levei-a comigo a um SPA e esqueci a rígida disciplina dos exercícios e caminhadas. Claro que voltei com o mesmo peso, mas nunca voltei tão leve.
Feminista em uma época em que tal rótulo desqualificava a mulher, Rose Marie não teve medo de desafiar mitos e tabus. Enfrentou tanto a igreja quanto o regime militar na busca da libertação feminina, trazendo ao debate público o mito da sexualidade da mulher e as questões de gênero.  A falta de visão não a impediu - ou melhor, até a incentivou - a fazer o que tinha que ser feito.  Ela mesma diz: Sempre fiz coisas impossíveis porque o fato de ter nascido com deficiência visual não me permitia chegar perto das pessoas normais.  Ou faço o impossível ou morro. É impossível ser medíocre.  São exemplos assim de vida que, parafraseando o hino riograndense,  devem servir de modelo a toda terra!”


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Informações sobre Rose Marie Muraro

Rose Marie Muraro (Rio de Janeiro, 11 de novembro de 1930Rio de Janeiro, 21 de junho de 2014) foi uma escritora, intelectual e feminista brasileira.2 Nasceu praticamente cega e sua personalidade singular deu-lhe força e determinação suficientes para tornar-se uma das mais brilhantes intelectuais de nosso tempo. É autora de mais de 40 livros e também atuou como editora em 1600 títulos, quando foi diretora da Editora Vozes.2 1
Estudou Física e economia,2 1 foi escritora e editora. Publicou livros polêmicos, contestadores e inovadores dos valores sociais modernos. Nos anos 70, foi uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil. Nos anos 80, quando a Igreja adotou uma postura mais conservadora, passou a ser perseguida pelos ideais. A atuação intensa no mercado editorial foi fruto de sua mente libertária, cuja visão atenta da sociedade pode ser comparada a de muito poucos intelectuais da atualidade.

Primeiros anos e feminismo

Oriunda duma das mais ricas famílias do Brasil nos anos de 1930 e 40, aos 15 anos, com a morte repentina do pai e consequentes lutas pela herança, rejeitou sua origem e dedicou o resto da vida à construção de um novo mundo, que ela descreveu como mais justo, mais livre. Nesse mesmo ano, conheceu o então padre Helder Câmara e se tornou membro de sua equipe. Os movimentos sociais criados por ele nos anos 40 tomaram o Brasil inteiro na década seguinte. Nos anos 60, o golpe militar teve como alvo não só os comunistas, mas também os cristãos de esquerda.
A Editora Vozes foi um capítulo à parte na vida de Rose. Lá, trabalhou com Leonardo Boff durante dezessete anos e das mãos de ambos nasceram os dois movimentos sociais mais importantes do Brasil, no século 20: o movimento de emancipação das mulheres e a teologia da libertação — até hoje, base da luta dos oprimidos.1
Nos anos 80, presenciou a virada conservadora da Igreja. E em 1986, Rose e Boff foram expulsos da Editora Vozes por ordem do Vaticano. O motivo: a defesa da teologia da libertação, no caso de Boff e a publicação, por Rose, do livro «Por uma erótica cristã».

Premiações

Rose Marie Muraro foi eleita, por nove vezes, «A Mulher do Ano». Em 1990 e 1999 recebeu da revista Desfile o título de «Mulher do Século», e da União Brasileira de Escritores o de «Intelectual do Ano», em 1994. O trabalho de Rose, como editora, foi um marco na história da resistência ao regime militar, e devido a este trabalho, recebeu do Senado Federal o Prêmio Teotônio Vilela, em comemoração aos vinte anos da anistia no Brasil.
A militante foi palestrante nas universidades de Harvard e Cornell, entre tantas outras instituições de ensino norte-americanas, num total de quarenta. Editou até o ano 2000 o selo Rosa dos Tempos, da Editora Record. Foi cidadã honorária de Brasília (2001) e de São Paulo (2004) e ganhou o Prêmio Bertha Lutz (2008). Pela Lei 11.261 de 30 de dezembro de 2005, passada pelo Congresso Nacional, foi nomeada «Matrona do Feminismo Brasileiro».3



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