Artigo: Quem é seu filho? Por Cristiane Segatto

 

Quem é o seu filho?

Os pais perderam a intimidade com as crianças. Esse e outros efeitos da terceirização da educação e dos cuidados de saúde

CRISTIANE SEGATTO
13/12/2013 14h32 
 
Quando estava em licença-maternidade, em meados do ano 2000, recebi em casa o telefonema de uma desconhecida. Foi um diálogo inesquecível.
A moça havia dado à luz há uns 15 dias. Aflita, procurava uma babá. Queria saber minha opinião sobre uma profissional que eu entrevistei enquanto selecionava a pessoa que cuidaria de minha filha quando eu precisasse voltar ao trabalho.
Pedir referências a outras mães sobre as habilidades das babás é uma prática comum. Incomum foi a conversa. Com a emoção de quem analisa números dispostos numa planilha Excel, a moça ressaltou que tinha pressa. Tentei demonstrar atenção e solidariedade, mas parecia que eu falava com uma parede.

Argumentei que, embora a escolha fosse difícil, ela poderia fazê-la com calma. Afinal, ainda teria quatro ou cinco meses de afastamento antes do retorno ao escritório.

Inflexível, ela respondeu: “Você não está entendendo. Faço análise do Risco Brasil. Não posso ficar esse tempo todo longe do trabalho. Vou voltar um mês depois do parto”.
 
Lamentei em silêncio. O que aquela moça estaria pensando? Que o trabalho dela era o mais importante do mundo? Que ela era insubstituível? Que seria demitida se gozasse um direito legal? Que o Brasil sofreria uma fuga de investimentos estrangeiros se ela não estivesse a postos para avaliar o ambiente para negócios no país?

Deve ter feito várias projeções. Em algum momento teria analisado o risco pessoal e familiar daquela decisão? Não amamentar, não acompanhar os primeiros meses de desenvolvimento do filho e terceirizar os cuidados com a criança como quem terceiriza a faxina dos banheiros da empresa tem um custo. É uma operação de alto risco.

Esse diálogo voltou à minha mente na segunda-feira (9), enquanto entrevistávamos o pediatra Daniel Becker no programa Roda Viva, da TV Cultura.
Becker disse que a terceirização da educação dos filhos é o grande drama das famílias. Ele não descobriu a pólvora, não fez revelações bombásticas, não alinhavou reflexões absolutamente originais. Apesar disso, fez um notável sucesso.
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A entrevista foi curtida, compartilhada, retuitada, comentada por muita gente. Até agora tento entender a razão. Tenho uma suspeita. Além de simpatia e inteligência, Becker tinha a oferecer um artigo raro na praça: bom senso.

Se pais com nível universitário e boa condição socioeconômica se mostram incapazes de educar os filhos, não me parece razoável argumentar que lhes falta informação. O problema é outro. A maior carência dos nossos tempos é a de bom senso.
 
São muitos os exemplos de insensatez e de terceirização excessiva dos cuidados com os filhos. Pediatras como Becker frequentemente atendem crianças que vão ao médico acompanhadas dos pais e da babá. Ou só pela babá. A cada pergunta do médico, é a babá quem responde.

Os pais sabem muito pouco sobre os hábitos, a saúde e o comportamento das crianças. Tornam-se ilustres desconhecidos. Sem perceber, cavam um abismo intransponível entre as duas gerações.

“Os pais perderam a intimidade com os filhos”, diz Becker. O resultado é conhecido. Por culpa, falta de jeito ou ansiedade, eles passam a supervalorizar a criança. Acham que devem fazer todas as vontades delas e evitar qualquer frustração.

“Nessas famílias, a criança vira Deus. Não pode ser contrariada”, afirma Becker. É um erro. “É preciso deixá-la se frustrar um pouco, se entediar um pouco.”

Nesse ambiente, surgem os reizinhos mandões que vemos nas escolas, nos shoppings e, um pouco depois, no ambiente de trabalho.

“O Reizinho Mandão” é um livro delicioso da escritora Ruth Rocha. Em casa, sempre foi um dos nossos favoritos. Narra a história de um rei que cria leis tolas do tipo “É proibido dormir de gorro na primeira quarta-feira do mês”. Ele manda e desmanda. Faz o que bem entende pelo simples prazer de dar ordens. Reina absoluto até o dia em que uma criança o desafia, a população percebe a irrelevância dele e passa a ignorá-lo.

Na vida real, a falta de bom senso produz uma geração de reizinhos mandões. Como na história, não costuma acabar bem.

Não pretendo aqui defender que as mães abandonem carreiras promissoras para ficar em casa, cuidando dos bebês. Não acho saudável, nem justo confinar a mulher a um único papel – a menos que esse seja o prazer e a vocação dela.

Todos os dias as mulheres provam que são capazes de se dividir em muitas. Elas conciliam casa, trabalho, filhos, estudos, beleza com notável habilidade. O segredo é não almejar a perfeição.

Administro a vida como o equilibrista de pratos daqueles circos antigos. O importante não é manter cada prato girando perfeitamente. O importante é acudir cada um no momento certo para evitar que eles caiam.

Quando o bebê nasce, toda profissional vive o dilema do retorno ao trabalho. E, antes disso, vive o dilema da terceirização dos cuidados. O que é melhor? Deixar a criança na creche, com uma babá ou com a avó?

Todas as possibilidades têm prós e contras. A escolha depende da estrutura familiar e do orçamento do casal. O importante, em todas as opções, é não exagerar na terceirização.

Minha filha teve babá. Creches que funcionam em horário comercial não são uma alternativa para jornalistas. Trabalhamos em horários irregulares, frequentemente à noite e de madrugada.
 
Nossa saída foi criar um sistema de semi-terceirização. A babá não dormia no trabalho e folgava todos os sábados, domingos e feriados.

Eu e meu marido fazíamos um revezamento. Um dos dois chegava em casa a tempo de substituir a babá quando a jornada diária dela terminava.

Em boa parte das manhãs e nos finais de semana, nossa filha era só nossa. Nunca a babá nos acompanhou ao pediatra, ao supermercado, ao restaurante, ao hotel, ao teatrinho infantil.

Pudemos acompanhar o desenvolvimento do paladar. Com alegria, levávamos a Bia para conhecer frutas e legumes no hortifrutti ou na feira. Apresentamos sabores e texturas e hoje nos orgulhamos de ver as escolhas que ela é capaz de fazer.

Aos sábados ou domingos, eu preparava cardápios para a semana inteira e comprava os ingredientes. Faço isso até hoje. Facilita a vida, evita desperdício e nos dá a certeza de comer bem durante a semana toda, mesmo que o preparo das refeições seja terceirizado.

Os pais precisam reassumir seu papel na educação alimentar. Durante a entrevista, Becker mencionou contradições comuns. “Os pais se preocupam com vento encanado e pés no chão frio, mas oferecem aos filhos lixo tóxico para eles comerem”, afirma.

Ao ouvir isso, me lembrei de outra historinha. Quando minha filha ainda estava na fase da papinha e decidíamos viajar de férias, a alimentação era um desafio. A babá preparava as sopinhas da semana em casa, congelávamos em diferentes potinhos e colocávamos numa bolsa térmica. No hotel, transferíamos tudo para o freezer. Como eram viagens curtas, sempre dava certo.

Um dia fizemos uma viagem um pouco mais longa, de carro. Resolvi passar no supermercado e comprar uma papinha pronta, dessas industrializadas, para oferecer a ela quando fizéssemos uma parada num restaurante de beira de estrada.

Planejei tudo direitinho. Só não contei com o apurado controle de qualidade da minha bebê. Tirei a tampa do produto e, na primeira colherada, ela cuspiu a gororoba longe. Fez uma careta horrível, como se eu estivesse oferecendo a ela alguma coisa imprópria para consumo humano.

Como desprezar essa sabedoria? Foi a primeira e última vez que uma papinha pronta entrou no nosso carrinho de supermercado.        

Aprender a comer bem é um patrimônio para a vida toda, mas os pais negligenciam esse aprendizado. Acham que isso não é importante ou que não é função deles. Se preocupam mais em comprar o último iPad para os filhos do que em saber se eles reconhecem uma berinjela.
    
Educar é difícil. Ter filhos é conhecer a vida selvagem. Precisamos menos de manuais de instrução e mais de bom senso. Acertamos aqui, erramos ali. É preciso ter serenidade para aceitar isso.

Sou mãe há quase 14 anos. Muita coisa vem por aí. O balanço geral, até agora, deixa a família satisfeita. Não terceirizamos além da conta. Não perdemos o contato. Não nos arrependemos.
 

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