Filme "Soledade" de Paulo Thiago - releitura do romance "A Bagaceira"



Nas minhas andanças nordestinas nesse último mês de julho (Caruaru – Garanhuns – Paulo Afonso – Petrolina – Juazeiro, que em breve contarei aqui nesse BLOG), durante as recentes férias, aproveitei para mergulhar um pouco mais nos marcos da cultura nordestina que tanto me impressionam, e que, de certa forma, tem sido objeto constante de algumas dos meus interesses.
Foi na fria Garanhuns, durante uma feira cultural na noite de abertura do festival de inverno deste ano, que conheci Antônio Vilela de Souza, pesquisador pernambucano sobre o mundo do cangaceirismo. Comprei na exposição do Sr. Vilela mais alguns filmes sobre o cangaço e sobre o nordeste para minha humilde “coleção” sobre os temas nordestinos.
Dentre estes filmes, me caiu às mãos o longa “Soledade”, dirigido pelo intelectual Paulo Thiago, nos idos de 1976. Trata-se de uma adaptação livre do romance “A Bagaceira” do paraibano José Américo de Almeida. Antes de falar no filme, cabe, portanto, lembrar do livro!
Li José Américo de Almeida durante uma intenso período de leituras nordestinas que tive em meio ao meu curso de Direito na UEPB. Além desta obra mais tradicional, lembro de ter lido “Memórias de uma cabra” e “Ocasos de sangue” do mesmo autor. Nesse período li também a obra completa de José Lins do Rego, outro paraibano que muitíssmo utilizou os recursos do romance regionalista. Digamos que me inseri de modo intenso nesse universo da literatura do nordeste, que, para mim, desaguou no romance urbano e sensual de Jorge Amado.
“A Bagaceira” é um romance de transição, que serve de pedra fundamental para o regionalismo social da literatura brasileira. Trata da passagem da produção arcaica dos engenhos (com “a bagaceira” e o “fogo morto”, como temas recorrentes, apenas para recordar, mais uma vez, José Lins do Rego) para as usinas de cana, ou um reflexo da urbanização e modernização do Brasil rural e oligárquico (com seus costumes, linguagem e tradições) para um Brasil voltado para o futuro, muito menos afeito aos paradigmas interioranos, em que vivemos hoje.
No filme, “Soledade” é uma linda morena retirante, que vem do sertão para o brejo em busca de sobrevivência com os seus, muito bem interpretada por Rejane Medeiros (atriz natural de Acari-RN mas radicada no Rio de Janeiro), que desperta o interesse e a paixão de vários homens ao seu redor. Em meio aos vínculos épicos e românticos entre “Soledade” e seus “homens”, desenrolam-se conflitos muito bem apresentados pelo diretor, dentre os quais se destacam: a) a luta de perfis e culturas dos sertanejos com os brejeiros (em certo momento do filme Pirunga olha para o padrinho e diz: - Isso aqui é o Brejo, país estrangeiro!!); b) a transição da política nacional entre a República Velha e Estado Novo, tomando por base a morte de João Pessoa e a deflagração da Revolução de 30, que levou Getúlio Vargas ao poder; c) o conflito entre as gerações que se sucedem na oligarquia coronelista do nordeste, entre pai e filho, um apegado ao “fogo morto” do engenho tradicional e o outro entusiasta da substituição da produção quase manual pelas usinas de cana.
Tome-se, como destaque, ainda, a bela fotografia dos canaviais na região de Pilar – PB e a fotografia de uma luz intensa que permeia o filme, dando a nítida sensação do calor úmido do Brejo paraibano para quem está do lado de cá da tela!
Além de todo esse enredo, ressalta uma história muito bem construída de disputa pelo amor da sertaneja” Soledade” que reaparece nas últimas cenas como cangaceira do bando de Pirunga, companheiro de infância e eterno apaixonado!
Vale assistir a obra pela reflexão sobre o “ciclo da cana de açúcar” no romance brasileiro, e mais ainda, pela valorização dos tipos nordestinos que até hoje encantam os mais variados públicos, além de ser um belo exemplo de que o cinema brasileiro nem sempre foi “novelista” como hoje em dia, e sempre teve ótimos exemplos de pensadores do outro lado das câmeras.

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