Tropeiros da Borborema: o verdadeiro hino de Campina Grande




Eu me criei ouvindo, por meu pai e por minha avó paterna que a música "Tropeiros da Borborema " , embora registrada em nome do respeitadíssimo Rosil Cavalcanti, era na verdade de autoria do criminalista, jurista e político Raymundo Asfora.

Todos que me conhecem de perto, sabem de minha devoção por Campina Grande, terra querida e venerada! Sem dúvidas “Tropeiros da Borborema” é o mais belo hino já feito em nome de Campina.

Lembro-me que, no primário, as professoras de Ciências Sociais, nas aulas de “História da Paraíba” colocavam os pequenos alunos para ouvir “Tropeiros da Borborema” naquela batida melódica inconfundível e marcante, que me deixou profundamente impressionado. Posteriormente, já cursando o antigo “científico”, na fase de preparação para o vestibular, ainda no querido Colégio das Damas, ouvi novamente esta linda canção como fundamento para a matéria de História local, e a emoção foi a mesma.

O tempo foi passando e ganhei de minha avó um disco feito pela Prefeitura de Campina com temas históricos cantados por Jackson do Pandeiro (“Eu fui feliz lá no Bodocongó...” e “Quem vai a Campina, pede pra ficar, tem muita menina pra se namorar...”, dentre outras), Marinês, que tive a honra de conhecer em certa vez na nossa cidade (“Quando me lembro de Campina Grande, peço notícias e você mande” e “Sou tão pequenininha, mas só gosto de tudo grande...”) e também com a gravação de “Tropeiros da Borborema” em estúdio por Luiz Gonzaga, que ouvi tanto que deve ter quase acabado com o cd!

Já adulto, tive, há alguns anos, a oportunidade de conhecer pessoalmente o pernambucano Santana “O Cantador”, que sempre executa “Tropeiros da Borborema” em suas passagens por Campina (http://letras.terra.com.br/santanna/1523786/). Há poucos dias, na execução do Projeto Seis e Meia, aqui mesmo em Campina, gravei a exibição de Santana tocando “Tropeiros” em uma linda homenagem a nossa terra, que em breve vou postar no youtube para que todos possam ter acesso.

Há poucos meses, na casa do querido amigo e professor Adisson Leal, tive oportunidade de conversar com seu sogro, o professor e historiador Rômulo Cavalnti Nóbrega, que está escrevendo uma importante biografia sobre Rosil Cavalcanti. E ao perguntá-lo sobre a verdadeira origem dessa música, o mesmo me contou que na versão original Raymundo Asfora utilizou a expressão “embora a burrama gema”, no lugar de “recordar hoje é meu tema”, que o Rei do Baião alterou para tornar a canção mais compreensível para o público em geral (http://www.youtube.com/watch?v=QRGqCkEX8Cw). Fato histórico marcante, há registro de Luiz Gonzaga se desculpando publicamente por não ter feito a gravação na versão original, e há, ainda, gravação de uma única apresentação do Rei, pouco antes de sua morte, cantando a versão conforme feita por Raymundo Asfora, e declarando ser aquela a mais bela canção que já havia gravado.

De toda forma, acredito que a divulgação de “Tropeiros da Borborema”, com sua simplicidade poética, sua perfeição lingüística e sua incrível manifestação cultural e musical merece ser ouvida e lembrada com freqüência por todo o povo de Campina Grande. Este deve ser motivo de nosso orgulho patriótico de “cidade-país”! Este deveria ser, na verdade, nosso hino!

Segue abaixo texto do professor e músico Rangel Junior sobre o tema e a música.

Boa leitura a todos!

Borborema, tropeiros e burramas

“Esta é uma terra de tropeiros, burramas e bem-te-vis. Tem açudes, muitas ladeiras, universidades, ciência, cultura e arte (em baixa). Tem saberes, mas é ruim de memória.

Uma cena marcante aconteceria em plena Rua 07 de Setembro, em Campina Grande, no dia 08 de dezembro de 1975. Luiz Gonzaga do Nascimento, o Rei do Baião, no palco, em alto e bom som pedia desculpas publicamente a Raymundo Asfora por “não ter gravado a letra completa” da canção Tropeiros da Borborema, tal como ele a havia concebido e dado a Rosil Cavalcanti para musicar.

Ao mesmo tempo, o Rei se comprometia a, “futuramente, numa próxima gravação, resolver o problema”. Qual o problema, então, que motivaria o Rei do Baião a se retratar publicamente em Campina Grande? Respondo: ele havia modificado a letra original de “Tropeiros” por achar que a tornaria mais compreensível para a população.

“Estala, relho malvado / Recordar hoje é meu tema (meu lema) / Quero é rever os antigos / Tropeiros da Borborema…” com estes versos Luiz Gonzaga abria aquela que viria a se tornar o segundo hino de Campina Grande. Na verdade, originalmente, Asfora escreveu: “Estala, relho malvado / embora a burrama gema […]” e mais adiante “[…] em busca da terra [‘beleza da terra’, na versão gonzagueana] que tanto se expande / e se hoje se chama de Campina Grande / foi grande por eles que foram os primeiros / oh, tropas de burros / oh, velhos tropeiros”.

Em dezembro de 1988, em sua última Missa do Vaqueiro, em Serrita-Exu (PE), em participação especial com o Quinteto Violado, Luiz Gonzaga pede um mi menor ao seu sanfoneiro auxiliar e diz: “Eu vou cantar agora a música mais bonita que já cantei em toda minha vida […]” e inicia, com a voz já cansada, os versos memoráveis, desta vez, conforme o poema original de Raymundo Asfora. É a única gravação do Rei do Baião cantando “Tropeiros” com a letra original.

Em tempos de homenagens a Campina Grande, Lei Municipal confirmando a música como uma espécie de segundo hino, votação popular escolhendo a canção como aquela que melhor representa a cidade, nada melhor, segundo meu juízo, que fazer jus à obra original de um dos mais nobres defensores desta terra, o poeta Raymundo Yasbek Asfora. Seria uma forma de mostrar respeito pela memória daqueles que declararam, poeticamente, seu amor por Campina e fizeram da sua vida um ato de amor de fato. Ao mesmo tempo, seria uma declaração de compromisso com a verdade histórica.

É bom lembrar que a música foi registrada apenas em nome de Rosil Cavalcanti [editada pela BMG], quando todos sabem e até propagam que a mesma é resultado de parceria com Raymundo Asfora. Isso também está registrado na mesma gravação de Luiz Gonzaga, em praça pública, na comemoração de um dos aniversários da Rádio Borborema.

Em boa hora as rádios e TVs, poderiam tomar uma atitude crítica e utilizar a versão correta da música, uma vez que ela existe e é conhecida. Por outro lado, o poder público campinense [por intermédio de sua Procuradoria Geral ou outro mecanismo] deveria providenciar documentação e efetivar o registro junto à editora, para que a história não seja traiçoeira e negue ao poeta Raymundo Asfora o direito moral, de ter o seu nome oficialmente reconhecido e registrado como um dos autores de uma das mais belas canções de toda história da humanidade.

Nem Asfora nem seus herdeiros ganhariam nada, materialmente, com tal procedimento. Os herdeiros não querem auferir lucros com a canção. Mas, sem dúvidas, seria um grande feito em reconhecimento a um dos mais destacados brasileiros que lutaram por esta terra de tropeiros e burramas (que ainda teimam em circular em meio aos carrões importados). Seria também um grande ato em respeito à sua memória e em respeito à inteligência dos milhares de mortais, modernos tropeiros, que teimam em fazer de Campina Grande seu lugar de pouso, descanso e mesmo a “sua” terra. Viva a cultura respeitada!

Rangel Júnior
Portal iParaíba

Fonte: http://asfora.blogspot.com/2007_10_01_archive.html

4 comentários:

  1. Boa tarde! De muito bom gosto seu texto, sobre a música imortalizada na voz do maior Rei que o Brasil já teve...
    me mencionado Jackson, Marinês e Santanna que ainda nos brinda tão maestralmente com seu dom e há de brindar por longos anos...
    Essa canção me toca muito profundamente tb, apesar de não ser campinenense, mas tenho minhas raizes por ai, pois meu pai sempre cantou esta canção pra nos ninar, por ser fã enloquecido do Rei Gonzagão.
    Não o conheço pessoalmente, mas pude vê-lo no I CMD, pois estive presente e ao visitar o blog do meu querido professor Godinho achei o seu blog por lá.
    Gostei do que vi por aqui e afirmo que passarei a visitar com frequencia!
    Um Abraço!!

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  2. Com relação a música Tropeiros da Borborema, só se mudou porque D. Nevinha falou que a musica é de Rosil

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  3. E faltou dizer que a Villa Nova da Rainha possui um hino muito bonito...ela é mesma venturosa !!

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  4. Você teria o MP3 da gravação do Luiz Gonzaga nessa noite memorável em que ele cantou a versão original da música? Poderia disponibilizar?

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