Leite Derramado - Chico Buarque

Vi hoje no site do UOL que Chico Buarque causou alvoroço no Festa Literária Internacional de Paraty deste ano, a famosa FLIP, com uma mesa sobre seu quarto livro “Leite Derramado”. Como sempre, Chico mantém uma verdadeira legião de admiradores de várias idades, com formações culturais bem distintas e de classes sociais diferentes (assistir no link: http://entretenimento.uol.com.br/ultnot/multi/2009/07/03/0402316EC4C16346.jhtm)

Comprei “Leite Derramado” pouco depois do lançamento em uma livraria de Natal-RN. Ainda não havia chegado na Paraíba, e só estava disponível na net e em poucas lojas. Li de um só fôlego e fiquei impressionado como Chico continua capaz de deixar seu público em êxtase, mesmo depois de tantos anos na carreira de artista.

Afora as canções geniais, com letras inconfundíveis, Chico enveredou na condição de romancista. Não é o literato despreocupado de peças como “Calabar” ou de “Roda Viva”, cuja canção tema é inesquecível. È o romancista que faz com suor e dedicação suas páginas, que trabalha as influências recebidas ao longo do tempo e as converte em construções literárias muito bem moldadas.

Tive a oportunidade de, ainda na faculdade, ler “Estorvo”, seu primeiro romance, da biblioteca de meu pai. Em seguida, embalado pelas músicas de Chico que progressivamente ia descobrindo, comprei “Benjamim” e, pouco tempo depois, li emprestado de um amigo “Budapeste”.

Sem dúvidas, “Leite Derramado” é o melhor de seus quatro romances. Retrata, num leito de hospital, os últimos momentos de vida de um senhor decrépito e decadente, cuja história o próprio personagem tenta narrar, mesmo sobre o efeito de sedativos confundidos com a “caduquice” e a “invencionice” peculiar aos idosos.

O personagem constrói e desmonta sua vida em relances que deixam o leitor na dúvida, imaginando se aquilo realmente teria acontecido ou é apenas a versão do senhor que procura se convencer, no fim da vida, de que seus passos foram mais belos, elegantes e distintos do que realmente ocorreu.

Paralelamente, há uma crítica social forte, procurando demonstrar a fragilidade da “burguesia” brasileira, a decadência das famílias tradicionais, e o jogo de aparências que até hoje é tão caro às celebridades e a uma parte da “elite” nacional.

Vale apena ser lido, e conhecer o lado romancista do gênio da música.

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