Direito de Família e cotidiano: Ex-casais falam da possibilidade de manter a amizade após o fim do relacionamento

Ex-casais mostram que é possível manter amizade depois de separação

Quem foi um grande amor em nossas vidas não precisa, necessariamente, ser nosso maior inimigo. O Bem Viver entrevistou homens e mulheres que um dia foram casados e que hoje mantêm uma relação cordial e madura

Se já nos amamos, por que nos odiarmos?” Apesar da interrogação, não restam dúvidas para o professor Mário Antônio Caram Filho. Melhor amigo da ex-mulher, ele e a atriz Emília Marcílio, com quem viveu por 17 anos, têm uma relação ainda atípica na sociedade, mas que faz todo o sentido. Afinal, por que todo o carinho, o companheirismo e o amor experimentados ao longo do tempo se transformam em briga ou indiferença depois do término? A manutenção da amizade entre casais que se separam é um jeito de manter filhos, amigos e projetos unidos. E, principalmente, de continuar perto de quem foi um grande amor, um bom motivo para seguir lado a lado, de outra forma, no caso.

Mas para continuar amigo precisa ter sido amigo antes. Não se constrói uma relação profunda de um dia para o outro, muito menos depois do trauma de um rompimento. Mário e Emília, por exemplo, sempre se deram bem. Os dois se conheceram nos Estados Unidos. Emília foi visitar a irmã que vivia na Flórida e em três dias deu de cara com Mário, amigo do seu cunhado. “Foi amor à primeira vista. Depois de uma semana ele comentou com um amigo: ‘Vou casar com essa menina’. Começamos a namorar e minha visita de dois meses durou sete. Só voltei para visitar meu pai, que adoeceu, e pedir autorização para casar. Na verdade, era uma mentira, porque a gente ia mesmo era morar junto”, lembra Emília.

Os dois sempre foram tão amigos que algumas pessoas eventualmente os conheciam e perguntavam se eram irmãos, tamanha a afinidade. A amizade não mudou com o tempo, nem com a separação. “Apenas a convivência não é mais a mesma, mas o tempo não destrói o que foi solidamente construído. Não faria sentido algum não mantermos uma boa relação, já que temos um vínculo muito forte, nossa filha, Clara, que nos proporcionou o mais belo momento de nossas vidas”, defende Mário. Mas nem sempre a amizade vence. Nem sempre os casais conseguem. Nem sempre o “novo amor” entende o apego com o “antigo amor”.

Segundo a psicoterapeuta de família e de casal Cláudia Prates, existem dois tipos de manutenção da amizade pós-separação. A primeira é quando o casal já era amigo antes de se envolver emocionalmente e tem apreço por essa amizade. “O rompimento da relação mais íntima não impede a continuidade da ligação anterior. Pelo contrário: o casal opta por mantê-la.” A outra situação é quando as duas pessoas reconhecem a dificuldade de continuarem como um par, por causa da pouca felicidade e pelos frequentes e sérios distúrbios na relação. Percebe-se a melhoria da vida de ambos após a separação e essa constatação é dos dois envolvidos. “Quando a descoberta é unilateral, o outro se sentirá lesado.”

Partindo do princípio de que as pessoas têm dificuldade em não serem aceitas, a proposta de desfecho da relação gera, no mínimo, um período de indisposição, de mágoa, de ira. “Separação é como cirurgia: mesmo programada é traumática”. Para Cláudia Prates, a amizade só aparecerá após a elaboração dessa fase. “Não conheço uma passagem do casamento para o descasamento sem uma transição indigesta. É necessário um período de recolhimento para a absorção da realidade modificada e a metabolização da despedida”, defende a especialista.

Ser amigo do ex demanda tempo e jogo de cintura. E não é pra qualquer um. Como disse Nietzsche: “Só se case com quem você gosta de conversar. Você vai precisar disso quando tudo mais passar”.

Ex-casais que se tornaram amigos transformaram a antiga relação em um convívio rico e prazeroso

O segredo é querer o bem da outra pessoa sem esperar nada em troca

Sertão nordestino, 1940. A sonhadora Lisbela está prometida ao advogado da cidade quando se apaixona por Leléu, incorrigível conquistador, artista mambembe de circo, preso pelo excesso de suas paixões. A atração é recíproca e o casal corre todos os riscos para viver um grande amor. A atriz e produtora mineira Fernanda Botelho, de 33 anos, é a Lisbela da montagem da Canastra Real, produtora teatral que mantém com Ricardo Ferreira Batista, de 59, ator, diretor e produtor, que assina a direção da peça. Mais do que atriz e diretor, mais do que sócios, Fernanda e Ricardo são ex-namorados. E são também amigos.

De 26 a 29 deste mês, eles estarão novamente em cena, no Teatro Alterosa. Ela no palco, ele na coxia. Lisbela e o prisioneiro, sucesso da dramaturgia nacional, é mais uma montagem da dupla, que soube seguir junta mesmo após o término do relacionamento que os uniu. Em 2004, Fernanda fez substituição em uma peça do diretor. No fim do mesmo ano, na montagem de um novo espetáculo produzido por ele e em que ambos atuavam, começaram a namorar. Meses depois ela tornou-se sócia na Canastra Real, produtora que Cadinho, como é conhecido, já tinha há algum tempo. O namoro durou quatro anos. O término chega à mesma marca. Todo o resto permaneceu.

"Foi um relacionamento muito bom, chegamos a morar juntos. A amizade perdurou porque era a parte mais forte da relação. Existe muita admiração de um pelo outro, profissional e pessoal", conta a atriz, segundo a qual a relação com Ricardo continua ótima. "Temos nossas discussões de trabalho, que são muitas (risos), mas nos damos bem: há muito carinho de um pelo outro. Os ganhos são muitos. É muito bom poder continuar sendo amigo de quem a gente gosta", defende Fernanda, que tem amigos em comum com Ricardo e com eles pode continuar convivendo. As famílias mantêm o mesmo carinho com ambas as partes. "Enfim, é sempre bom ter boas amizades, independentemente do que já ocorreu no passado."

Fernanda não é a primeira ex que fica amiga de Ricardo. Aliás, ele faz questão de que a amizade permaneça em suas relações. "Quando gosto de uma pessoa, não quero que ela saia da minha vida. Quero ver, conversar. Hoje, minha relação com a Fernanda é parecida com a que tenho com minha filha, com minha irmã. Quero o bem dela, sempre", comenta o diretor, responsável, inclusive, por apresentar o atual namorado de Fernanda. "Nossa relação é tão boa que até o namorado dela fui eu que arrumei. Comigo vai ser sempre assim. Gosto de continuar amigo mesmo que o relacionamento tenha acabado. Só não será assim se a outra pessoa não quiser", acredita. "Melhor seria impossível", diz Fernanda.

EVOLUÇÃO A sociedade no trabalho pode ter facilitado a amizade de Fernanda e Ricardo. Entre outros casais, o elo amistoso pode ser a prole de cada um e, às vezes, sentimentos menos nobres. Para Cláudia Prates, psicoterapeuta de família e de casal, existem casos em que a amizade é apenas uma desculpa para se continuar por perto, seja pelo desejo de retorno, pela vontade de não perder a pessoa de vista ou puramente pela ilusão do controle. "Qualquer uma das três pode levar a uma máscara de amizade", defende.

O que determina a possibilidade de um contato saudável é a elaboração do ressentimento, a forma como ocorre a separação e o grau de evolução dos envolvidos. Pessoas muito dirigidas pelo ego não suportam ser dispensadas. E há quem tenha mesmo uma grande dificuldade em abrir mão do ex. "Vejo como tentativa de controle, pelo temor de permanecer só. Uma chance de reativação do relacionamento, mesmo ele não tendo dado certo. É quase um recurso de consolo pessoal: um mal conhecido visto como algo melhor que um canto solo a se conhecer”, explica especialista, que também observa uma maior facilidade de os homossexuais se manterem amigos dos ex. "A solidariedade e o desejo de não restringir a área de contato é maior entre eles. Abrir mão da relação, da amizade ou do contato leva a um prejuízo superior."

E tudo pode ir muito bem até que aparece uma nova pessoa na vida do ex. Nesse momento, é exigida, implícita ou explicitamente, uma lealdade à nova pessoa, quem nem sempre vai ver com bons olhos o bom relacionamento pós-término. Quando os novos parceiros têm filhos, uma ajuda mútua na educação na educação dos mesmos pode ser um álibi para favorecer a aproximação. Mas para Cláudia, há aí uma outra meta, nem sempre divulgada. "A pura amizade, destituída de qualquer interesse, é muito difícil de se ver nesses casos", acredita a psicoterapeuta.


Amor e amizade andam juntos para ex-casais que conseguem superar traumas da separação

Sentimentos complementares podem caminhar lado a lado se o casal tem amadurecimento suficiente para saber superar a raiva do outro, a frustração e os traumas de uma separação

Às vezes, é o que sobra. A paixão se esvai, o amor se transforma, e com quem tanto se dividiu e sorriu só fica amizade. O que não é pouco. O sentimento acompanha os casais pela vida a dois. Amizade que é também respeito, cumplicidade, apoio, um carinho que transcende. Segundo a psiquiatra e psicoterapeuta Ana Ester Nogueira Pinto, coautora do livro e jogo Tui: a arte de amar, amor e amizade são sentimentos próximos. “A origem e a vibração é a mesma. Mas o amor que une parceiros e que forma o casal é o amor sensual, sexualizado. Esse amor erótico sustenta a maioria das relações, principalmente de adultos jovens. Devem existir afinidades de corpo, de alma, de valores. Isso resulta, normalmente, em casamento.

Segundo a especialista, a capacidade de amar ou de lidar com as frustrações e raivas é treinada nas relações de família, em especial na primeira infância, com a mãe e o pai. Se eles se amam e passam amor para a criança, ela terá forte tendência a manter essa forma de relação. E vai amar pessoas por afinidade, de uma forma fraterna ou sensual, quando for o tempo. Como o casamento, surge uma série de tarefas e obrigações que não eram vividas na casa dos pais, e o casal precisa desenvolver a maturidade de cuidar delas sem perder de vista o namoro. Se o casal, em especial aqueles que já têm filhos, passa a conviver como colegas de república, e com ressentimento pelas obrigações e deveres, vem o problema.

Surgem duas opções. Uma delas é levar a vida assim, em boa convivência, respeitando o cansaço do final do dia, desenvolvendo a fraterna amizade. Na outra, as raivas vão sendo acumuladas com saudades de um tempo de vida sem compromissos e passa-se a ver o outro como culpado pela própria infelicidade. Vem a separação. E separação, com raiva, é sempre ruim e traumatizante. “Uma boa relação de casal envolve amor, amizade, admiração e sexo. Não precisa ser sexo todo dia, como nos jovens namoros, mas um jogo sensual diário que lembre ao outro o quanto ele é querido e admirado”, explica Ana Ester Nogueira.

À PROVA
 Faz parte das relações de amor o sentir-se amado, especial, reconhecido e belo. Quando tudo isso deixa de existir, quando fica só a ternura amiga, quem sentir falta de ser desejado e visto como um ser de beleza e força irá buscar essa sensação de vitalidade em outra pessoa, em outro encontro. E assim, todo amor é posto à prova. “O amor maduro escolhe a felicidade do outro, em primeiro lugar. Sente a dor, mas acolhe a realidade da perda e pode fazer sobreviver a amizade, o respeito, os interesses em comum (filhos, se for o caso). O amor que prima pelo sentimento de posse fica agredido, frustrado, raivoso. Não haverá amizade porque já não havia a maturidade do sentimento.”

Alguns casais tentam manter a relação pensando na família, na expectativas dos pais ou dos filhos. Mas é um equívoco: os dois acabariam ressentidos e frustrados ao não priorizar a própria vida e liberdade de escolha. Segundo Ana Ester, também é um engano pensar que os filhos não percebem a infelicidade dos pais. Eles não só percebem, como introjetam aquele modelo de relação para si mesmo, mantendo um circuito de falta de autonomia e infelicidade. É preciso viver as escolhas, afinal, todas as experiências de vida fazem parte do aprendizado de viver, de se humanizar e de amar. O desenvolvimento psicológico humano vem pelo amor ou pela dor.

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