Padre Cícero, herói ou bandido??

Terminei ontem de ler a biografia do Padre Cícero Romão Batista, ou simplesmente Padim Ciço para os milhões de nordestinos devotos do padre milagreiro do interior do Ceará. O jornalista Lira Neto, que já havia escrito biografias importantes como a de José de Alencar e a da cantora Maysa, dedicou uma pesquisa bastante profunda para tentar traçar um perfil de Padre Cícero, fundamentado em documentos históricos, e não apenas na tradição oral nordestina.

Em mais de 550 páginas, o biógrafo se utiliza de mais de 900 documentos da correspondência pessoal do Padre, distribuídos, principalmente, entre telegramas e cartas. A biografia revela um homem extremamente ciente da realidade do sertanejo, de seus pontos fortes, de seus pontos fracos e, principalmente, de sua devoção religiosa fervorosa.

Padre Cícero faz parte da tríade cultural nordestina, composta, além dele, por Lampião e por Luiz Gonzaga. Os três, reunidos, perfazem a estrutural cultural do nordestino, sobremodo o nordestino do interior. A reunião desse “alicerce” de identidade do povo nordestino constrói, em bases firmes, nossa forma particular de entender o mundo do nordestino até os dias de hoje.

Particularmente em relação ao Padre Cícero, o que se destaca é a devoção popular aos santos protetores, nos quais temos por convicção creditar tudo de bom que nos acontece, assim como a proteção para os desafios cotidianos. O povo sacrificado do nordeste se filia a esta linha “paternalista” de encarar a religião e encontra na figura sertaneja o santo local, acessível, que compreende as labutas de cada um pelo simples fato de ser tão filho da terra como qualquer um dos milhares de romeiros que o buscam sistematicamente.

Padre Cícero foi uma figura extremamente complexa. Terminou a vida excomungado da Igreja Católica, acumulou patrimônio incrível para os padrões da época e, ainda mais para um clérigo, entrou de cabeça na política, tendo sido eleito e reeleito prefeito de Juazeiro (atual Juazeiro do Norte, para diferenciar de Juazeiro da Bahia) por muitos anos consecutivos. Foi Vice- governador do Ceará e chegou a ser eleito Deputado Federal. Rico e poderoso, fazia uso primoroso da devoção incondicional que os romeiros tinham pela sua figura, chegando até mesmo a fazê-los, por mais de uma vez, pegar em armas para defendê-lo.

Herói ou bandido, o livro não responde essa pergunta, nem parece ser este o objetivo do autor. Na verdade, procura-se traçar um perfil coerente do Padre Cícero, a fim de que o leitor tenha sua própria convicção e tire suas conclusões sozinho. O livro merece toda a sua leitura, e funciona muito bem como fonte de pesquisa para as raízes nordestinas. Essa nordestinidade incrível que nos faz admirar Lampião, escutar Luiz Gonzaga com os olhos cheios de água e nunca perder a fé.



4 comentários:

  1. Opa,

    nunca fui um pesquisador da vida desta figura nordestina, mas o pouco que aprendi sobre o mesmo acabou que formando minha opinião. Não sou fã e não gosto de toda devoção que é dada a essa pessoa. Principalmente por ter usado, na minha opinião, de forma tão inescrupulosa de sua influência religiosa.

    Bom, acho que merecemos os líderes que temos... infelizmente

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  2. Olá,

    é difícil falar de pessoas que não convivemos, é difícil e precipitado tirarmos conclusões antes de realizar um estudo aprofundado sobre a matéria!
    Padre Cícero tem seus defeitos como qualquer outro ser humano. Pode ter usado de sua malícia para conseguir subir na política, usar da admiração de muitos para tornar-se inesquecível, contudo nunca decepcionou quem nele crê, quem é, a ele, leal.
    Tive a oportunidade de conhecer Juazeiro do Norte, fui na condição de romeira, e de certa forma não acreditava no tamanho da devoção que Pe. Cícero causava, mas confesso que fiquei encantada, confesso que toda a devoção daquele povo, que vem de todos os "cantos" do Brasil, contagiou-me.
    Ao conversar com moradores da cidade, de modo particular com os idosos, que deixam a fé tão viva e transparente, conseguimos ter somente uma noção da grande devoção que envolve Pe. Cícero, bem como de suas obras benfeitoras.
    Não sei responder se ele foi um herói ou um bandido, sei apenas que foi uma pessoa de Deus, humana como qualquer outra e que fez tanto por um povo que é reconhecido até o dia de hoje.
    Acredito que Juazeiro orgulha-se do seu líder, acredito que ele é, sem sombra de dúvidas, um ícone cultural com todo o mérito possível.

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  3. O pe. Cicero na minha opinião era um homem sábio, embora, também se utilizasse de artificios engenhoso para aparentar que era um homem "adivinhão". Eu particularmente, não creio nele como a maioria dos católicos até por que devemos crer somente em Deus. Mas não podemos discriminar ninguém por suas crenças. Embora saibamos que a fé deve ser racional.

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  4. Sou Ateu, logo sou suspeito para falar e dar opiniões sobre o Pop Star Pe. Cicero ops.. *Santo Padin Ciço!! Pelo pouco que conheço da história deste senhor que tornou-se uma verdadeira lenda do Nordeste Brasileiro, pude perceber a principal intenção dele: Beneficiar-se da política, manipular milhões de sertanejos famintos, sendo que esta fome era não só apenas por alimentos mas também de atenção, amor e sobretudo conhecimento(intelectualidade), este homem fez pactos com as grandes oligarquias(Exploradores e principais Responsáveis pela Pobreza de toda aquela gente)....

    Como disse logo acima sou ateu, e logo quanto ao "milagre" não necessito expressar minha opinião. Padre Cicero a meu ver tinha todas características semelhantes em seu jeito de agir com a do Catolicismo da era medieval!!! Lula = Pe. Cicero...Políticos, nada mais!!

    Um dia o nordeste vai transformar esse tipo de gente em lembranças mortas, e ai então irá desenvolver-se!!

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